Volume 14 (2025)
Atos de análise e atos de mudança na crioulização
Jürgen Lang (Universidade de
Erlangen-Nürnberg)
Download [pdf]
Resumo
Este artigo divulga e comenta um manuscrito de Hugo
Schuchardt, até agora inédito, acerca dos sistemas verbais das variedades de
Crioulo Caboverdiano. Anexa-se a este artigo uma transcrição e imagens do
manuscrito. O artigo tenta dar resposta a perguntas relativas à originalidade,
organização, fontes e período de produção do texto de Schuchardt. O autor
conclui terem sido razões de probidade científica a impedir que Schuchardt
publicasse o seu texto, o que evitou certamente que se difundissem entre a
comunidade científica certos erros das suas fontes. Por outro lado, por essa
razão, ficaram também por conhecer, por muito tempo, algumas descobertas e
intuições brilhantes do fundador dos Estudos Crioulos acerca dos crioulos de
Cabo Verde e do Atlântico. O artigo exemplifica os ditos erros das fontes, mas
também as descobertas e opiniões de Schuchardt.
Este
artigo ocupa-se de um problema teórico. O autor pretende demonstrar que a
crioulização não pode ser reduzida a uma série de mudanças linguísticas na
chamada língua-base. Define a crioulização como aquisição de língua segunda
incompleta acompanhada por um processo de integração das interlínguas dos
aprendentes. Para atingir este objetivo, o autor ignora as circunstâncias que
frequentemente acompanham os processos de crioulização sem que seja necessário
justificar o uso do termo (1. Introdução). Na
secção 2., recorre-se a um exemplo caboverdiano para recordar alguns fatores que
são geralmente aceites como essenciais em processos de mudança linguística. Na
secção 3., com base num cenário ficcional e idealizado dos primeiros anos da
crioulização do português por falantes de wolof na ilha caboverdiana de
Santiago, demonstra-se que tais falantes de wolof seriam incapazes de alterar
os fonemas, sílabas, morfemas, palavras e construções do português porque,
inicialmente, teriam acesso apenas a sequências sonoras não segmentadas
provindas do discurso dos dominadores portugueses. Consequentemente, os
crioulizadores não começam com atos de mudança linguística, mas antes com atos
de análise de trechos fónicos com base no que eles próprios poderiam ter
produzido na sua própria língua. Do ponto de vista da língua-alvo, estas
análises podem ter maior ou menor sucesso. Utilizando exemplos reais do crioulo
de Santiago, documentam-se análises mal-sucedidas. Contudo, assim que os
crioulizadores têm ao seu dispor unidades hipotéticas da língua-alvo por via da
sua análise, podem aproximá-las de elementos da língua-alvo. Na secção 4.,
explica-se que, ao fazerem-no, eles levam efetivamente a cabo atos de mudança
linguística, não na língua-alvo, mas no crioulo emergente. Com base em 3. e 4.,
a Conclusão (5.) rejeita equiparar crioulização com mudança linguística e
demonstra como as largamente negligenciadas dinâmicas dos processos de crioulização
podem agora ser modeladas como substituições incrementais de atos de análise
por tais atos de mudança linguística específicos da crioulização.
Palabras-chave: Aquisição de língua segunda, crioulização, análise de
trechos fónicos, mudança linguística, crioulo cabo-verdiano de Santiago
Abstract
This
article deals with a theoretical problem. The author wishes to demon-strate
that creolization cannot be reduced to a series of linguistic changes in the
so-called base language. He defines creolization as incomplete second language
acquisition accompanied by a process of integration of the learners'
interlanguages. In order to achieve his goal, he ignores circumstances that
often accompany processes of creolization without being necessary to justify
the use of the term (1. Introduction). Under 2., a Cape Verdean example is
used to recall some generally accepted essentials of language change processes.
Under 3., based on an idealized, fictional scene from the early years of the
creolization of Portuguese by Wolof speakers on the Cape Verdean island of
Santiago, it is shown that these Wolof speakers were unable to change the
phonemes, syllables, morphemes, words and constructions of their masters'
Portuguese because they initially only had access to the unsegmented sound
streams of their masters' Portuguese speech. Accordingly, creolizers do not
begin with acts of language change, but with acts of analysis of phonetic
strings based on what they themselves could have said in their own language if
they were in the master's position. Measured against the target language, these
analyses can be more or less successful. Failed and unsuccessful analyses are documented
using real examples of Santiago Creole. However, once the creolizers have
hypothetical units of the target language at their disposal thanks to their
analysis, they can approximate these to elements of the target language. In 4.,
it is explained that, when doing so, they indeed carry out acts of language
change, but not in the target language, but in the emerging creole. Based on 3.
and 4., the Conclusion (5.) rejects the equation of creolization with language
change and shows how the hitherto largely neglected diachronic dynamics of
creolization processes can now be modelled as an increasing replacement of acts
of analysis by such creolization-specific acts of language change.
Keywords: Second language acquisition,
creolization, analysis of phonic strings, language change, Cape Verdean creole
of Santiago